Eu não sei o que sou
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Eu não sei o que sou
nem aquilo que quero ser.
Sou apenas como os outros:
uma pessoa normal
com trabalho, filhos para criar e uma mulher.
Não tenho talentos
nem qualidades a destacar.
Não tenho aspirações
nem boca para falar (Ele não ma deixa abrir).
Não tenho liberdade
nem livre-arbítrio (Ele não mos quer dar).
Sou apenas uma casca daquilo que outrora era,
cujo fruto foi devorado e saboreado por Ele.
Eu sou apenas eu.
Não me posso alegrar,
nem posso ficar triste;
não me posso enojar,
nem me assustar,
nem me zangar.
Eu não posso sentir nada
nem posso sentir tudo,
pois tenho de O respeitar,
senão de um nada passo a nada.
Não parece nada,
mas para quê matar-me se já estou morto cá dentro?
Não O quero vivo
nem O quero morto.
Apenas quero que Ele não fosse algo.
Não quero ir para o Céu
nem para o Inferno.
Apenas quero sentir algo.
Eu não sei o que Ele pensará...
Talvez num redemoinho regressará
e a minha vida reclamará.
Estou receoso?
Não sei, porque ele não me permite sentir nada.
Eu só quero um pouco de alegria,
de tristeza, medo,
nojo, raiva, o que for.
Não me importo que emoção é,
apenas quero sentir algo…
Subitamente, o meu nada sentiu algo.
Mas esse algo desapareceu com Ele
que entrou e saiu pela minha porta.
Ao mínimo sinal de revolta, Ele interveio.
Se me importo? Se me vou vingar?
Não sei.
Não posso mostrar emoções, senão ele tirar-mas-á.
Não posso falar
nem pensar
aquilo que me vai no coração,
já que Ele mo arrancou.
Enquanto a minha vida não for Sua,
viverei mais outro dia de trabalho,
mais outro dia com os filhos e com a mulher.
Agora...
Sei lá.
De volta a sentir nada, palpito eu.
Afonso Tavares, 11.º A



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