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Eu não sei o que sou

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Eu não sei o que sou

nem aquilo que quero ser.

Sou apenas como os outros:

uma pessoa normal

com trabalho, filhos para criar e uma mulher.

 

Não tenho talentos

nem qualidades a destacar.

Não tenho aspirações

nem boca para falar (Ele não ma deixa abrir).

Não tenho liberdade

nem livre-arbítrio (Ele não mos quer dar).

Sou apenas uma casca daquilo que outrora era,

cujo fruto foi devorado e saboreado por Ele.

 

Eu sou apenas eu.

Não me posso alegrar,

nem posso ficar triste;

não me posso enojar,

nem me assustar,

nem me zangar.

Eu não posso sentir nada

nem posso sentir tudo,

pois tenho de O respeitar,

senão de um nada passo a nada.

Não parece nada,

mas para quê matar-me se já estou morto cá dentro?

 

Não O quero vivo

nem O quero morto.

Apenas quero que Ele não fosse algo.

Não quero ir para o Céu

nem para o Inferno.

Apenas quero sentir algo.

 

Eu não sei o que Ele pensará...

Talvez num redemoinho regressará

e a minha vida reclamará.

Estou receoso?

Não sei, porque ele não me permite sentir nada.

 

Eu só quero um pouco de alegria,

de tristeza, medo,

nojo, raiva, o que for.

Não me importo que emoção é,

apenas quero sentir algo…

 

Subitamente, o meu nada sentiu algo.

Mas esse algo desapareceu com Ele

que entrou e saiu pela minha porta.

Ao mínimo sinal de revolta, Ele interveio.

 

Se me importo? Se me vou vingar?

Não sei.

Não posso mostrar emoções, senão ele tirar-mas-á.

Não posso falar

nem pensar

aquilo que me vai no coração,

já que Ele mo arrancou.

 

Enquanto a minha vida não for Sua,

viverei mais outro dia de trabalho,

mais outro dia com os filhos e com a mulher.

 

Agora...

Sei lá.

De volta a sentir nada, palpito eu.

 

Afonso Tavares, 11.º A

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